Há noites que são mais longas do que outras. Um desfecho
dorido às vezes não sara mais depressa só porque se muda a ligadura que se
colou à ferida. E é isto. Os velhos ficam mais velhos e os novos acham-se
velhos. Vestem então, com pouca dignidade, a pele de velhos. Tempos modernos,
dizem os que não sabem melhor. E eu olho por ti. Meu amor, meu homem criança.
Um velho com pele de jovem. Diz lá, o que te vai na cabeça? Ostentas com tanto
orgulho essa barba ruiva de traquinas e esses olhos tristes de cão, bem-amados
por quem te quis bem. “São verdes-floresta”, diz ele a rir-se com os dentes
curtos à mostra. Belos dentes de ex-fumador. Vejo-o a rejuvenescer de dia para
dia. “Nem vinte anos lhe dão”. É outra
vez um menino, puro com lábios de morango. E eu vou tendo saudades dele, arrependo-me
das saudades e penso nos dias que virão. Melhores dias virão, dizem novamente aqueles
que não sabem melhor.
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Sunday, December 27, 2015
Monday, March 2, 2015
Ao Rogério (Parte II)
Hey,
Hoje
Escrevo-te do futuro.
De um futuro aristocrático que vive dentro de um pudim. Não pensei que o futuro fosse assim quando construí a máquina do tempo mas enfim, não me vou queixar, tive de arriscar para te poder ver neste mundo onde mal me consigo mexer. E agora? É que não sei se consigo comer mais deste pudim e a tua casa, esta tua casa no futuro, ainda está tão longe que não me vejo a chegar lá ainda hoje.
De um futuro aristocrático que vive dentro de um pudim. Não pensei que o futuro fosse assim quando construí a máquina do tempo mas enfim, não me vou queixar, tive de arriscar para te poder ver neste mundo onde mal me consigo mexer. E agora? É que não sei se consigo comer mais deste pudim e a tua casa, esta tua casa no futuro, ainda está tão longe que não me vejo a chegar lá ainda hoje.
Thursday, February 5, 2015
Amado Rogério
Lá estava ela, a mulher à janela, melodiosamente camuflada
pelo reflexo de uma cortina no vidro.
Rogério. Rogério é um bom nome. Todos dizem que não podia ter sido melhor escolhido. Amado
pela mãe e pelo pai, amado pelos vizinhos da rua onde cresceu, pelos amigos,
amado até ao último cão e gato com quem se cruzava.
Rogério, a quem todos amavam, ansiava por ser amado pela
mulher atrás da cortina encarnada.
Ela morava num prédio, ele morava numa Casa. Daquelas com jardim.
Deu com a mulher depois de ter dado com o céu estrelado. Feita de raios de luz
que formavam uma imagem óptica real, lá estava ela, ampliada geometricamente no
fundo de um tubo.
(E coisas)
Thursday, August 28, 2014
Não escrevas mais poemas
Ele olhava-a cobiçoso
Venerava-lhe a seriedade
Aquele semblante
Dignidade
De longe
Pensou
Ela não sorri pois é uma mulher triste
Como as dos bons filmes
De perto
Viu
Afinal só tinha os dentes podres.
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Shit poems
Thursday, July 17, 2014
Fim de tarde
Por cima de um braço em forma de meia-lua um olho encontra o
outro. Com os dedos enluvados pelo sol e de pálpebras semicerradas, os pequenos
amantes trajados de Verão esboçam um sorriso cúmplice.
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Thoughts
Thursday, June 19, 2014
Shh
A poesia da velhice eclode num desenfreado patético de
gritos de arrependimento. Os mais novos fogem assustados com o som dos clamores
que ainda hão-de vir.
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Saturday, February 9, 2013
Sem causa aparente
Existem ensejos que,
Aquando de frente,
Com o insuportável
Bravio das emoções
Comungam
Uma comunhão povilhada de contradições
Juntam-se os pés e as mãos
E os corpos contorcem-se
Acreditam
Piamente
Nesta honra domesticada
Acreditam
Dolorosamente
Naquela mudança
Que não vem
O vácuo interior sugou-a
É a fome que os instiga
E a fome é negra.
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Poemas
Monday, October 22, 2012
Marketing
- Hey!
- Hey…
- Para onde vais apanhar o comboio hoje?
- Para 1900.
- O quê? Outra vez? Conheceste lá alguém?
- Sim e não.
- Ou é uma coisa ou é outra.
- Sim
porque já o vi e Não porque ainda não
lhe falei.
- Lá estás tu com tecnicidades.
E,
dito isto, o homem baixo e sisudo saltou do parapeito de uma janela alta e
ferrugenta. Na janela ao lado, igualmente ferrugenta e alta estava a mulher que
pretendia apanhar o comboio para 1900. Atenta e com os olhos semicerrados
devido ao excesso de vapor expelido pelas chaminés das locomotivas que não
paravam de passar, esta forçava a vista por detrás dos óculos de metal para conseguir
identificar qual a carruagem pretendida. Os comboios passavam rapidamente e
todos eles tinham várias aberturas no tecto e junto destas estavam inscritas de
forma elaborada e dourada as décadas para as quais abriam caminho. A mulher
puxou o elástico dos óculos para os ajeitar melhor à cara e, enquanto ajeitava
também o corpete e inspirava fundo, saltou.
E enquanto caía, apenas se lembrava
de pensar, pela centésima vez: Devia ter
apanhado o zepelim.
E o que ela pensou muitas outras também
pensam. Viaje confortavelmente de zepelim,
onde apenas tem de subir uma elegante escadaria de cobre e sentar-se no lugar
que as nossas hospedeiras lhe indicarem. O seu romance não tem de ser
conturbado para ser memorável.
Air Zeppelin
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Crazy Good,
Playing with words
Saturday, April 14, 2012
Perdi a cabeça
Ainda não sei bem como, ou porque, mas
parece que andei meses a fio com o cérebro a escorrer-me pelas
orelhas abaixo. É que nem dei conta dos
neurónios a cair. Simplesmente foram-se. Estava a fazer chá e
acho que o temperei com eles (daí o sabor azedo). E assim,
misturados com bolachas de água e sal, reintroduzi-os novamente no
organismo. Tornaram-se no petisco do dia que a corrente sanguínea
decidiu levar a dar uma volta. E onde foram eles parar? E logo num
respeitável aglomerado?
Exactamente.
Ao coração, que (coitado) não sabe o
que fazer deles. Atrapalhado, não tem outro remédio senão começar a bombeá-los ao acaso enquanto tenta adivinhar
onde raios é que é suposto aquela semi-suculenta (pois o coração
por vezes julga-se canibal) massa pertencer.
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Só porque sim
Saturday, April 7, 2012
Rascunho (ou tpc)
Ela pega no batom cinzento e pinta os lábios. Completamente indistintos do resto da sua pessoa e imperceptíveis a olho nu. Ahh, mas ela gostava do gesto, daquele pequeno e imprescindível ritual. E, satisfeita com o seu aspecto cinzento, ela sai de casa e funde-se com o resto do mundo. Engolida pelos edifícios e cravada no chão das ruas a Sombra caminha, inconsciente da sua inconsciência e satisfeita em tornar-se uma só com as outras sombras. A simplicidade de uma comunhão com o único mundo que alguma vez conheceu preenche-a. Porque não precisa de mais, porque não sabe de mais. Tudo o que tem lhe chega. Não anseia por aquilo que não consegue percepcionar. Assim, ela não tem noção da importância de cores que não vê.
Nada é mais real do que a sua secretária cinzenta que se une na perfeição com os seus braços enquanto escreve em folhas que não consegue ler. Imersa num mundo cheio de diferentes tonalidades da mesma cor ela sente-se satisfeita com as escolhas que acredita ter tomado.
Mas, por vezes, quando desaparece ou se torna imperceptível no negro que a apaga, a Sombra treme e movimenta-se sem ser vista. Busca-se a si própria sem nunca ser bem sucedida em se encontrar. Então resigna-se no que sabe. No seu limitado conhecimento do mundo dependente de luz e formas para existir. E quando a luz a reaviva novamente, ela renasce nos seus limitados contornos e continua os seus afazeres, completamente inconsciente de que a vida que vive não lhe pertence.
Na sua simplicidade não sabe que não passa de uma sombra no mundo das sombras.
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Só porque sim
De modo nenhum
Porque a minha adoração não é completa, ou sequer coerente, por vezes vejo-me forçada a limitar-me ao tão desvalorizado silêncio. Assim, quando tento realmente falar, não tenho as palavras comigo. Sinto a sensação de insuficiência a abalar todos os meus frágeis alicerces e cinjo-me à merecida crueldade proeminente na visão dele e dos outros. Então penso “tenho de me ir embora” mas a falta de concentração mantém-me presa ao mesmo sítio. Distraio-me com facilidade. É irremediável, está tudo perdido, há sempre alguém com uma adoração mais palpável que a minha. Vou-me sentindo a envelhecer a cada dia que passa, o coração vai ficando mais fraco e incapaz e é em vão que tento procurar o caminho de volta. Mas sou (por vezes) teimosa, então, enquanto a carcaça existir eu tento inventar palavras mágicas ou rituais que a possam reavivar. E lá penso (mais uma vez) "Quem sabe, não é?"
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Thoughts
Tuesday, February 8, 2011
Imaginary incoherency
I want to build a Palace of Laziness with strings of thoughts. I mean, if you mix them together really hard they might become thick and resistant (like some kind of shiny weird metal). After that you just need to move into that cozy made up Palace and chill, like a cat or a lion that doesn't mind living inside a maze.
![]() |
| Since I'm (just a bit) small, I would probably be like "Thomas, the Cat". |
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Wednesday, January 26, 2011
Numa galáxia distante:
Ela: Este Planeta não chega para nós os dois.
Ele: Sim, eu também começo a achar que não tenho estofo que chegue para desempenhar o papel de Principezinho. Tu não és nenhuma rosa.
Ela: Porque não preciso de uma redoma?
Ele: Porque não crias raízes.
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Thursday, September 23, 2010
Pontos de vista
Ele diz, defende, jura e acredita que “um romance nasce sempre do nada”. Ela nega, contradiz e diz que “um romance nasce sempre de alguma coisa”. Agastam-se um ao outro mas nada os faz parar de, cuidadosamente, rodopiar por entre as peças de um eterno jogo de tabuleiro. Estão perpetuamente presos num suspenso passo seguinte. As peças e o tabuleiro vão mudando de forma e de lugar mas regras do jogo nunca são definidas. Não há tempo. Não pode ser hoje, nem amanhã, nem depois. Dizem eles que estão a viver um romance, que é tudo por amor. Entre gritos e silêncios penosos dá-se uma ansiada pausa e tanto um como outro olham de soslaio para as peças que não pertencem ao jogo de tabuleiro que ambos tanto se entretiveram a jogar. Novos interesses são despertados e começa assim a proliferação de um e outro romance. Não dizem que traem, actos não acontecem. “São os teus olhares” grita ela, “são os teus pensamentos”, grita ele. Mantêm-se assim juntos em repetidas tentativas de separação. O mundo sem regras dos devaneios vigora. Imaginam que não são eles próprios. E amanhã? Como vai ser o quê e quem vai ser quem? Tentam os dois negar assim a proliferação estonteante de um ou outro romance.
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Wednesday, August 4, 2010
E se
E se eu
Te dissesse adeus,
Final meu
Pela manhã
Enquanto bebias
O teu café?
Não irias
De má fé,
Cortar-me o ar
E fechar
Os meus olhos devagar?
Levantavas-te depois
E dobravas o jornal,
Desligado assim do real,
Batias a porta,
E seguias a tua diária
Rota.
Ficarias
Tu
Com o meu “Adeus”,
Atado,
Preso,
Guardado
Num final teu.
Por: Snow White
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Monday, August 2, 2010
Pretextos
Rasgar o véu da realidade não é assim tão difícil como se imagina ou cegamente se conjectura, o pior é interagir com o mundo sem nenhuma obscuridade a toldar-nos a visão. Manter a cabeça erguida e olhar de frente para a imensidão da loucura e não entender, no meio do emaranhado de informações, quais são os fios da realidade. E se por acaso, por intempestividade ou pânico escolheres cortar os fios errados e a ilusão rebentar, prendendo-te dentro dela depois de tecer o teu novo véu, o da fantasia? No meio de delírios e vertigens ficarias assim a vislumbrar esse novo cortinado mais trabalhado, esvoaçante, perfeito e hipnotizante. Viver assim a vida, perpetuamente dentro de um quarto inventado, sem coragem ou vontade de afastar o véu da fantasia, porque isso sim, seria realmente difícil.
Por: Snow White
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Thoughts
Sunday, July 18, 2010
A árvore
Vou semear o meu amor, ali mesmo no meu jardim despido de vestígios de uma ou outra sementeira passada. E assim, com o meu amor semeado vou ficar desprovida de sentimentos e ligações humanas. Depois, satisfeita comigo mesma, vou entrançar o cabelo e cantarolar uma daquelas melodias que todos nós conhecemos. Eventualmente lá vou ter de comprar utensílios de jardinagem para poder tratar bem da semente plantada e assim protegê-la do calor, do frio e das ameaças voadoras e terrestres.
E uma árvore vai crescer de todo o amor que semeei e os ramos dela vão ser tão fortes e tão cheios de folhas que cobrirão o telhado da minha simples casa. Esta árvore não vai dar frutos nem se vai ver nela o primaveril desabrochar das flores. Ela vai sim engordar como se grávida estivesse. Espessa e imponente vai prender e preservar o meu amor dentro dela. E eu, da minha varanda, vou desfazer a trança e deixar o cabelo solto enquanto pondero se preciso de uma cadeira de madeira nova ou de lenha para alimentar a fogueira nas noites frias de Inverno.
Texto por: Snow White
A imagem é: The Prince in the Tree de Cory Godbey
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A árvore,
Little Stories I Wrote,
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Wednesday, July 14, 2010
Tentativa e erro?
De joelhos
Num chão frio,
O cabelo serve de vassoura
Para varrer um soalho limpo.
A voz é abafada por uma boca cheia
E as lágrimas são retidas por olhos cerrados.
Lábios doridos, músculos tensos
Corpo cansado,
Mente subjugada
Num momento suspenso
Adiado uma e outra vez
Temendo um fim
Talvez.
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Monday, July 12, 2010
Nua
Nua,
A pele esconde ainda
Segredos que queres arrancar
Puxar, esticar, procurar
Nela nua,
E saber
O que precisas de amar
E ver
Na alvorada
Manhã
Que chega
O véu de incerteza
No olhar dela
Nua.
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Friday, July 9, 2010
Queda
Pessoas feitas daquilo com que se fazem os sonhos, ouçam-me.
Vi-o ontem, a cair de uma nuvem.
Partiu as costas no cume de uma montanha.
O embate foi tão forte,
Que ele ficou paralítico.
Snow White
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