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Wednesday, September 16, 2015

Sr. Edmundo

O Sr. Edmundo tinha uma boneca. Daquelas de trapo com uma cabeça de porcelana. Era já um homem velho mas sempre que era avistado estava bem acompanhado da dita. Já todos se tinham habituado ao espectáculo pacato que os dois representavam. As crianças fizeram-se gente e desta gente nova brotaram outras crianças. A vila habituou-se ao Sr. Edmundo e agora quando lhe perguntavam pela saúde não se esqueciam de perguntar também pela da boneca. 

Apaixonou-se pela pequena quando ainda era rapaz novo, já naquela altura se comportava como um verdadeiro cavalheiro, e nunca deixou de olhar para aquela representação de gente com o mais nobre dos intentos. A irmã do Sr. Edmundo, uma perfeita tirana, deixava o inanimado ser em tudo quanto era sítio, até mesmo nas escadas, onde ocasionalmente a pobre coitada era pisada pela Mãe e arremessada para longe. O Sr. Edmundo, como qualquer outro homem enamorado, sofria com o tratamento destinado à boneca, até que um dia, coberto de vergonha mas cheio de coragem foi reclamá-la como sua ao quarto da irmã. Já foi tarde e não pôde salvar a pequena de um corte de cabelo que muito a desfigurou. Resgatou a boneca dos braços tiranos e infantis que a agarravam e tratou aquele infortúnio como se nada fosse pois o Sr. Edmundo não era "um daqueles sujeitos que só ligam às aparências".

Os homens da vila quando se zangavam com as suas mulheres e iam todos esbaforidos para o café comentavam alto entre eles que quem está bem “é o Sr. Edmundo, que tem uma boneca para companheira” e a isto o Sr. Edmundo sorria o seu sorriso calmo e segredava baixinho, numa voz que só a sua companheira ouvia, o quanto às vezes lhe custava que a cara de porcelana dela fosse tão fria.

Saturday, July 10, 2010

The sheep's tale - Part 2

The blood color sheep was also known as the Devil sheep.

When the Devil sheep spots the green one, she soon tries to engage in a conversation with that interesting specimen.

- Hello,

- Hello

- Do you know you look like food?

- Do you know you are a monobrow being?

- Do not call me monobrow! I’m a devil!

- Right. Of course you are.


And the green and red sheep fought. It was an epic battle, that no one witnessed.

The monobrow sheep, sorry, red sheep, got her ass kicked, obviously, since the green sheep was used to fight everyday to save her fleece.


Impressed by the green sheep’s strength, the red sheep made a lifetime’s preposition to her new “friend”.


- We should scram, you know, get away from this dump.

- And go were?

- Who cares? The sky is the limit! We could buy a bike, join a gang and feel the wind in our fleece as we ride till sunset.

- We are sheep.

- Don’t underestimate yourself!


(To be continued...)


Story by: Snow White

Worst art ever also by: Snow White

Sunday, July 4, 2010

The sheep's tale - Part 1

There was, once upon a time, this strange looking sheep, with this strange looking green fleece.

All the other sheep, at least once a day, ended up finding themselves trying to chew up the strange looking sheep's fleece.


But, one day, everything in the green sheep's everyday changed, when the sheep, with fleece as red as blood, appeared!

Here she is:

To be continued...

Story by: Snow White
Terrible art also by: Snow White

(Well, since I wasn't able to find the images I wanted for the sheep, I decided to draw them... I only had a green marker... Poor red sheep.)

This post is meant to cheer up R, my best friend.

Monday, June 14, 2010

Num mundo à parte - Parte 1


Marília chegou a casa furiosa e triste ao mesmo tempo. Passou pela cozinha a correr e fingiu não ouvir quando o pai lhe perguntou se já sabia das notas. Pura e simplesmente correu para o andar de cima. “Não, hoje não”, e empurrou a porta do quarto arremessando a mochila para o chão. Ligou o leitor de CDs e atirou-se para cima da cama a ouvir Pink Floyd. Agora não queria falar das notas, nem do facto de estar reprovada a matemática. Não ia de certeza realizar os sonhos dos outros e ir para medicina. Isso não constava na sua própria lista de sonhos, aliás a sua lista era bem reduzida, só continha três itens e os três pareciam cada vez mais inalcançáveis. Detestava a escola onde andava, a turma em que estava inserida, as disciplinas que tinha, especialmente a puta da matemática à qual acabara de tirar 1. Não, nada estava certo na sua vida, queria coisas diferentes, um estilo de vida diferente, uma cidade diferente, amigos com quem pudesse falar de tudo e não só das novas colecções de “roupas giríssimas” que tinham acabado de sair e do quanto é altamente aquele filme fútil que toda a gente viu. Não, ela queria algo diferente, tudo à sua volta estava errado e distorcido. Esticou-se na cama e tentou mentalizar-se de que tinha, pura e simplesmente, acabado de reprovar, a sua primeira reprovação durante toda a sua vida escolar… Isso não lhe podia estar a acontecer, parecia um pesadelo, os pais iam ficar furiosos por causa daquilo e a irmã ia fingir que a defendia mas só ia acabar por piorar tudo.
Era, sem duvida, o pior primeiro dia de férias de sempre, só lhe apetecia refugiar-se naquele canto da mente cheio de fantasia e contos de fadas em que ela se habituara a refugiar quando era criança. Lá é que se estava bem, tinha amigos e era uma guerreira japonesa, influencia de ler tanta mangá diariamente, e protegia um príncipe atraente e interessante chamado Maurício, nome que Marília adorava. E depois passava horas e horas a inventar cenários onde toda a gente a admirava e achava bonita. Um mundo imaginário onde ela não tinha os dentes tortos, e onde era aceite e ninguém a achava esquisita. Inventava um grupo de amigos que a acompanhavam em aventuras e onde eram todos os heróis do seu mundo imaginário.
Mas, com o passar dos anos, o seu mundo imaginário foi ficando mais fraco e foi relutantemente trocado pelo mundo real, onde as pessoas eram frias e cinzentas, onde não existiam grandes planícies para andar a cavalo e onde nenhum rapaz demonstrava qualquer interesse por ela. Não que isso a incomodasse muito, na realidade sim, incomodava, mas Marília fazia de conta que não. É mais uma daqueles pessoas que encontra refúgio em mentir a si própria. Vivia a sua vida, escrevia os seus poemas e ia deixando o mundo da fantasia cada vez mais para trás. No entanto, em momentos de tristeza, tentava sempre refugiar-se nesse cantinho especial da sua mente e já quase esquecido. Mas, a inegável verdade, é que ela sempre achara os cenários construídos pela sua imaginação mais sua casa do que o próprio cenário real que a rodeava naquele mesmo quarto.
Voltou-se na cama e olhou para o tecto coberto de posters e desenhos. Tentara ao máximo tornar aquele espaço num reflexo da sua personalidade mas não havia meio de o conseguir, faltava sempre qualquer coisa, um grande pedaço aliás. Mas o quê? Que raios lhe faltava para chegar a casa e se sentir em casa?


Texto por: Snow White
Imagem por: James Jean

(Nota: Vá lá, vão "easy on me", eu adoro fantasia, leio livros de fantasia todos os dias e, lá no fundo, ainda sou excessivamente teen, por isso perdoem-me esta historinha de fazer arroz, que vair continuar, repito, VAI CONTINUAR).

Saturday, June 12, 2010

Isaura


Lúis Miguel Ferreira, que completara vinte e três anos ha dois dias atrás, começava o dia às seis da tarde, bebia um café, comia uma fatia de pão sem nada, beijava o quadro que os pais lhe compraram quando ele tinha nove anos e dirigia-se, por fim, para o seu próprio atelier. De momento era pintor. Não era excepcional nessa actividade. Foi um evento marcante, a compra do dito quadro. No dia doze de Fevereiro, do ano de 1995, o jovem Luís deparara-se com a mulher da sua vida. Sim, o amor não tem idade, mas normalmente acontece entre dois seres humanos, não entre um rapazinho de nove anos e uma tela no meio da rua de um dia de inverno. Mas fiel aos seus sentimentos e princípios, Luís Miguel não arredou pé do lado da mulher de papel e do “senhor de barbas” que a tentava vender por um preço que Joana Ferreira considerava um verdadeiro roubo. Mas, felizmente para todos, dinheiro não era algo que escasseasse na família Ferreira e, finalmente, após quinze longos minutos de birra por parte do menino Luizinho, Joana comprou o maldito quadro com o dinheiro que o seu marido André Ferreira, médico dermatologista, lhe dispensava todos os meses. Nunca, a então jovem mãe, pensou que isso seria o mais próximo de um relacionamento que o seu amado filho iria ter nos catorze anos que se seguiram. “Isaura”, nome que o jovem pusera à mulher representada na tela, acompanhou-o durante todos os momentos da sua vida, e desde há uns três anos para cá, a obsessão só aumentava, principalmente depois dele se ter cruzado com Francisca Gonçalves.

E quem era esta? Agora é a vez de falar sobre a rapariga que completa esta história.

O que ia na cabeça de Francisca? A altura ideal para o que quer que seja é tão difícil de se encontrar, que acaba por ser sempre tarde demais, ou cedo demais, para se iniciar algo do qual se goste realmente. E era este o pensamento matinal de Francisca Gonçalves de 29 anos, durante o duche, antes de ir para o trabalho. Trabalhava num desses mini mercados já há seis anos, daqueles que se vê por aí, a serem completamente ameaçados pelos gigantescos monstros que são as grandes superfícies comerciais. Nunca foi para a faculdade, ou melhor, foi, mas um semestre chegou para Francisca perceber que aquela não era vida para ela. E então, vivia cada dia que passava sem quaisquer planos de futuro, de romance, e, por vezes, na mais completa apatia interior. Apenas interior porque exteriormente o seu sorriso era usado constantemente, tão constantemente que até a enganava a ela própria, por isso, na maioria do tempo Francisca acreditava que até era feliz. E porque não haveria de ser? Como poderia dizer que se sentia sozinha durante todo o dia? Os seus pais eram vivos, tinha amigos e vivia num ambiente sempre repleto de pessoas. Como não conseguia justificar o sentimento de solidão, convenceu-se a si própria de que ele não existia.

Imaginem agora o espanto da rapariga, quando Luís Miguel, com os seus sapatinhos de vela e petrificado com um Twix na mão, completamente crédulo de que tinha acabado de encontrar a sua “Isaura”, lhe desmaia mesmo em cima do balcão depois de ela o atender. A chatice que isso não foi, mas Francisca, completamente no controlo da situação, esbofeteia-o um bom par de vezes, ou mais, sem o mínimo de gentileza, até o rapazito recuperar os sentidos.

Dois meses depois, quando finalmente ela se convenceu de que Luís Miguel não era um louco perigoso, lá começaram a sair juntos. O rapaz entornava bebidas, deixava a comida cair nas constantes camisinhas às riscas que usava e não fazia a mínima ideia do que haveria de fazer com a Francisca. Um suspiro de irritação, uma ou outra reprimenda, e os dois lá se entendiam. Entre conversas superficiais, filmes de comédias românticas, ou sessões de cinema francês que o Luis Miguel tanto adorava, os dois lá se foram tornando inseparáveis. E um dia Francisca apercebe-se de que aquela sensação de solidão tinha passado, e fecha a loja toda sorridente. Não com o sorriso de atender clientes, mas sim com o tipo de sorriso que se estende mesmo até aos olhos e cria pés de galinha.

Vão para a cama, num quarto apenas com uma cama e cheio de maus quadros pendurados nas paredes. Luís Miguel, consegue aguentar-se dentro de Francisca uns dois minutos e depois enrola-se nele mesmo a chorar. Isto da perda de virgindade para um homem é sempre um assunto delicado, principalmente quando o homem em questão é o Luís Miguel Ferreira. Ele vira-lhe as costas e ela abraça-o por trás e faz-lhe festas no cabelo, e, quando isso se prova infrutífero para apaziguar a criatura, Francisca sussurra-lhe ao ouvido palavras doces e beija-lhe o rosto. Escusado será dizer que foi como recitar um feitiço e o sexo foi melhorando à medida que a noite passava.

Mas teve de chegar o dia, em que o Luís Miguel, inconscientemente, tratou a Francisca por “Isaura” logo a seguir a uma confissão de amor . E ela, mulher decidida e furiosa, vestiu-se em cinco minutos e deixou-o sozinho e nu na cama onde tinham acabado de fazer amor. Lentamente, mas o mais apressadamente que podia , o rapaz vestiu as calças e foi à janela ver se ainda a via. E viu, Francisca ainda estava bem ao seu alcance. E não foi preciso mais nada, ele voou pelas escadas abaixo sem camisa e sem sapatos e chamou-a ate estarem a um braço de distância um do outro.

E os olhares do povo? Eram os pedintes e os empresários a assistirem à cena. E Luís Miguel até se põe de joelhos a implorar para que Francisca voltasse com ele para casa. A rapariga, vendo-se rodeada de tantos olhares, e já meia comovida, lá o segue de volta.

E o mítico quadro é revelado, “Isaura” é posta em frente de Francisca e a sua historia é contada. Incrédula, a rapariga mal arranja palavras para definir tal situação.

Mas o mais interessante, e que fez com que ela abraçasse o seu amado fortemente e com ternura, foi que a “Isaura” do Luís Miguel não tinha qualquer semelhança com a imagem de Francisca Gonçalves.


(Apetecia-me escrever qualquer coisa diferente e saiu isto.)


Texto por: Snow White
(Imagem de João Ruas)
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