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Monday, June 14, 2010

Vermelho


No teu castelo, isolado do mundo, onde só tu habitas, a força da tempestade na escuridão cerrada da noite embate nos vidros das enormes janelas da varanda da tua torre. Uma cadeira, chamas de um fogo que já se começa a extinguir, um copo de vinho na tua mão e um quadro, do qual não tiras os olhos, completam o teu pequeno mundo.

Tens um encontro marcado, com alguém que não assume a sua própria existência. Um esgar nos teus lábios, uma tentativa de sorrir, sentes a tua excitação a crescer à medida que a noite avança com a sua usual insuportável lentidão. Mordes os lábios, o nervosismo à flor da pele faz-te encher de novo o teu copo com vinho. Fechas os olhos, a tempestade amaina, começas a vociferar contigo mesmo, sabes que Ela prefere temporais e chuva.

Tiras a gravata e desapertas um dos botões da tua camisa. O teu cabelo acaricia o teu pescoço e perguntas-te se não A aguardas em vão, a espera é sempre penosa demais, os sentimentos sofreram alterações dentro de ti, mas sorris, sentas-te na tua cadeira e continuas a beber o teu vinho. Não te deixes dormir, não guardarás memórias se te deixares dormir. Os teus olhos mantêm-se teimosamente abertos e fixos no quadro à tua frente.

Uma pintura de uma mulher. Que mais te prenderia tanto o olhar? Vestido vermelho, flores vermelhas, lábios excessivamente vermelhos, uma expressão séria no meio de tanto escarlate destoava com o resto do cenário. Quadro feito por um mau pintor. Os teus gostos nunca roçam a vulgaridade, mas este prendia-te mais a atenção que qualquer outra obra de arte aclamada. O desejo impossível de a fazeres sorrir levava-te todos os dias à mesma hora a subir os degraus até ao cimo daquela torre. Depois, de manhã, tudo não parece passar de um sonho e a meio da tarde a palavra “impossível” encerra o assunto. Mas, mal os primeiros raios de luz começam a desaparecer, já o teu coração ameaça explodir de ansiedade.

Mas hoje fitaste-a com uma expressão calma enquanto a viste aproximar-se de ti, deixando o vermelho do quadro para trás. Viste-a pegar no teu copo, esquecido no chão, e beber o resto do vinho que deixaste. Quase todas as noites o mesmo cenário se repetia mas nunca lhe ousaste tocar ou falar. Por vezes, o olhar dela correspondia à busca incessante do teu. Nunca tentaste dar os passos que vos separavam e tocar-lhe, tinhas a certeza de que ela se iria desvanecer no ar ou que os teus dedos atravessariam o seu corpo. Querias mantê-la real para sempre, “olhar era suficiente”, repetiste, centenas de vezes para ti mesmo, noites e noites a fio.

O vestido vermelho, comprido e simples, largo demais para o corpo que cobria, tingiu o chão com aquela cor quente, enquanto ela se sentava com a cabeça encostada à janela. E, mais uma vez, limitaste-te a contempla-la. Confinado no teu canto, davas sempre por ti a admirar aquele rosto constantemente inexpressivo e sem brilho no olhar. Não chovia, a noite serena era desesperante como plano de fundo deste ciclo interminável.


Texto por: Snow White
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