Tuesday, March 20, 2012
Mais uma noite daquelas
Monday, July 5, 2010
Narciso

Narciso é bom rapaz, só que sempre que sai à a rua caminha a olhar para o chão, como se as pedras da calçada guardassem segredos que só ele consegue ver. Anda assim Narciso à solta no mundo, taciturno e entretido com ele mesmo. Tem de se embebedar para soltar duas ou três palavras dirigidas à Laura, de quem ele tanto quer gostar, e quando finalmente chega a casa, tem ainda o habitual encontro com o espelho, espera-o a interminável disputa sagrada de todas as noites. “Já te disse que estás bonito e que só tenho olhos para ti”, diz o Narciso do espelho, mas não há meio destas palavras doces acalmarem o narciso em frente ao espelho, que se deita todas as noites descontente a olhar para o tecto.
Vai Narciso à festa da aldeia, agarrado ao seu cigarrinho e a ajeitar, com a mão livre, as calças que lhe caem. Nem reparou que emagreceu de tão interessado que está em fazer passar a mensagem sobre o segredo dos seus ombros encolhidos. Há que fazer os outros entender a extensão da beleza do seu mundo mental. No meio de conversas, de danças e gritarias ele lá se embebeda outra vez, arranca um ou outro sorriso à Laura e chama a minha atenção. Popular este Narciso não? E pensa ele que é só popular com ele mesmo, não, minto, pensa ele que é só popular com o Narciso do espelho.
Apanho-o sozinho, já quando a noite quase se transformou em manhã, desta vez entretido a decifrar que segredos as tábuas da mesa de madeira, à qual ele se sentou, escondem. As saudades que tu deves sentir do Narciso do espelho…
Olha que tu, Narciso de fora do espelho, tão preso estás em ti mesmo que nem vês que os primeiros raios de sol do dia estão a iluminar-te de uma maneira especial. Uma pequena luz foi reservada apenas para ti e tu nem a enxergas.
Vou-me sentar na mesma mesa em que tu te encontras e falar de mim até levantares essa tua cabeça, descontraíres esses ombros, parares de pensar nos teus próprios pensamentos e veres um pouco mais da beleza do mundo fora da tua mente. E depois vou só limitar-me a esperar que, um dia destes, movido pela fúria ou pelo desassossego, te decidas a partir o Narciso do espelho.
Texto por: Snow White
A imagem é: Narciso (1594-1596), por Caravaggio.
Friday, June 25, 2010
Joana, mulher de antigamente.
Thursday, June 24, 2010
Até nunca mais.

Ando cansada, não faço nada de nada e, mesmo assim, continuo cansada. Enigmático, este meu cansaço constante.
Vou dar uma volta, depois de libertar o “até nunca mais” preso na garganta, ou no emaranhado de neurónios avariados dentro da minha máquina cerebral. Não sei, ao certo, qual a prisão habitual dessas três palavrinhas. Também não estou interessada em decifrar mistérios, pelo menos não agora, depois de ter batido a porta de casa e saído para a rua.
Preciso de ver jardins, mas nunca se vê o que se quer nos momentos certos. Não quando este cansaço insiste em me abraçar desta maneira sufocante. Agora, por enquanto, momentos certos não existem.
Casualmente páro de caminhar, durante esta viagem do “até nunca mais”, e perco-me a observar uma das montras situadas na berma da estrada. É a montra do Romance com o seu item mais procurado, “o homem ou mulher da Tua vida”, em destaque, colado ao vidro a espelhar. Que ridículo, quando já se é velho, e se tem o mínimo de experiencia, sabe-se que já muita água correu debaixo da ponte desde aquele primeiro “homem ou mulher da tua vida”. Se calhar é por isso que esta montra está situada ao lado das outras duas mais conhecidas: A montra do Ódio e a da Vingança.
Entro na lojinha, dirigida por uma velhota excessivamente maquilhada e com um cheiro intenso a perfume francês. Apetece-me tapar o nariz, vou ficar mal disposta com o cheiro a unto e flores. Ela mal me fala, pela minha expressão já sabe que venho devolver alguma coisa.
- Ó menina, aqui não há reembolsos, mesmo que me entregue o que daqui levou, não espere que lhe devolva o que pagou pelo quer que seja.
Ai a voz aguda. Até os meus ouvidos agora sofrem. Mas pronto, resignada, lá tiro a caixinha de memórias boas e más, de mais um romance falhado, da minha mala invisível, e fujo dali para fora o mais depressa que posso. A caixa lá ficou, e vai-se perder, mais dia menos dia, no meio de todas as outras.
Volto para casa, com um bocado do cheiro bafiento de romance estragado ainda entranhado na pele e espero, mais uma vez, por um outro “até nunca mais”. Continuo é cansada, tão cansada como quando saí para dar uma volta. Aquele tipo de cansaço de quem tem sono mas que teima em não se deixar dormir com medo de perder alguma coisa.
Texto por: Snow White
(A imagem é uma pintura de Chris Shields)
Sunday, June 20, 2010
Intergalactic rebels Part 2 (not really)

So there I was, in that freezing cold weather, with no coat, only in my night t-shirt and barefooted. What a great idea, the one I had just five minutes ago, to come outside for a smoke, and forget the damn fucking keys inside the house. Just perfect, couldn’t love living alone more than at this precise moment. As if. Dammit, not even my imagination was helping me to bare this cold night weather. And, to worsen the situation, of course there was no one walking on the streets. I might as well be living in the woods right now, that the outcome would be the same. Where is a robber when you fucking need one? Or a rapist? No, forget the rapist idea, that wouldn’t be good. “Ok, stop thinking about being raped now”. The night turned creepy with all its shadows, and I would have to accept the situation I got myself into, and manage to just stay quiet till morning. And then, when the sun starts to shine, and the nearest café owners cross the street to open for business, I’ll borrow their phone to call my mom and see if she can bring me my spare set of keys. Fast.
But then, when I was starting to calm down “that” happened. A huge spaceship landed right in front of me. Oh…my…god. The spaceship from my imagination was there, here, in my world, right in front of me. In front of my naked eyes. This can’t be, damn you writers that say that imaginary things can’t come to life. I’ll shove this spacecraft up your asses and hear you say “ohh ohh it isn’t real”. That sounded like you were enjoying it, it’s not suppose to be enjoyable. I’m so screwed now, I’m a tough ass chick when the world I’m living in is all in my head, but outside, outside I’m just a short haired woman, skinny and small. She’s going to crush me. Oh yes she will, I could see the preview of the next minutes playing in my mind. “Ok, act tough, all rests in acting as you act in your imagination”.
- You fucking Whore! – She screamed, while she jumped from the spaceship to the ground.
I froze. Yeah I fucking froze, she was tall, with long hair that almost reached her waistline, and with an attitude as fierce as a wild cat's. Her eyes were menacing.
- You can’t be here. – I must say I didn’t sound very convincing while speaking, with my voice shaking a bit and with goose bumps all over my body. But, as a side note, the cold weather was partially responsible for that last part too.
- You bitch, unprogram him! Now! Or I’ll blast your brain! – And she pointed the very real gun, that came from my imagination, right at me.
- What? “Unprogram”? What the fuck do you mean with that? It’s not like I can actually do that, technically I never even touched him. That’s not even a word. – People sometimes aren’t very coherent when they are scared, so pardon my English will you?
And, it was then, that I finally saw him. He came from my imagination but he was different from how I imagined him. Was that even possible? His hair was darker, almost black, and his eyes were also black, or a very dark green, and he seemed more fierce than the sad human creation that was once only living in my mind. To sum up the description, he was hot, trust me, smoking hot. Tall as a tree and with a body that seemed hard as one. He looked at me with an angry stare, and I felt my knees shaking a bit. Bloody hell, what was I thinking when I discarded him in my mind?
But then, I came to my senses and there I was, with no keys to enter my house and being kidnapped by my imaginary beings.
- Take us inside. Now. - She ordered me in a cool tone of voice now.
- I can’t, even if I wanted I wouldn’t be able, I left my keys insi…
“BAM”, and the man, I’ll call him a man now and no more a discarded creation, had just knocked down my entrance door. The nice and pretty blue door of my house was ruined. He had more manners when he belonged to me. Oh God, have some mercy on my being... I liked it, his attitude, so rude and sort of sexy. He wasn’t very amused though.
Well, at least my problem was half solved, I only needed to call someone to fix my door in the morning. That is, if I was still alive in the morning. But now, inside my comfortable house and sited on my black couch, with the light of my computer gleaming on top of the table right next to me, I felt much better.
- What is this? – She asked me while pointing at my computer. – Can this unprogram him?
- I told you, I can’t do that. This is just a computer, I write my stories in there, I wrote about you both in there, there’s nothing I can do for him.
And then she fell to her knees, it was a pitiful sight. It made me feel superior right away.
- Then I can’t do anything for him too, he doesn’t respond to me, he’s mechanic, he follows your orders, he says “I love you” with his mechanic voice and I feel like I’m going crazy. I’ll turn insane soon if he doesn’t stop acting like that. I’m not a little girl anymore, I need a man, lust, love, pleasure and some kind of desire. This shit can’t be one sided. I can’t take it anymore.
It was all very dramatic, and for a second there, I feared that the brains she would probably blast that night, it would be her own.
Then, I got up from the couch, and patted her in the back. To my surprise she didn’t move. Then I had an idea, not brilliant, but they came from my mind right? So anything could work.
- My darling, I think that you just need a pet, and trust me, in this world you can have any man you want as a pet. – It was true, she was insanely beautiful.
- I want him. Unprogram Arkin for me.
“Arkin”, so that was the name of the man standing there, at the entrance of the door, looking at both of us with a cold gaze. He was a “thing”, passed on from hand to hand. That last thought made my heart feel a sharp pain for a second or two.
- Oh jeez, will you stop that, I can’t unprogram him or whatever you want me to do, can’t you understand that by now? Plus, I really need to pee. Desperately. Can I go alone or will you have to escort me to the bathroom?
- Just go. – she seemed disgusted by my words.
While in the bathroom, I took my sweet time, and, before I left, I even brushed my hair and my teeth.
At the living room, were the three of us were staying before, only Arkin remained. And he spoke, for the first time.
- She left me to you.
- Oh, she did?
I could imagine her pulling herself together and standing up. And I could see her in my mind saying a brief goodbye to him and getting out of my house without looking back. I must admit that I’m quite found of her, she’s truly tough. Outside my door, or, what’s left of it, the spaceship made little sound while flying away.
- What do you want me to do? – He said, in a very defiant tone.
“What the fuck? You are my creation, don’t talk to me like that”, I thought. He didn’t seem mechanic at all, just revolted and probably hurt. He lived in my imaginary memories, no big deal for me, but his whole life were those imaginary things. In the end, it really was a bit sad. But, honestly, who cares? I’m the writer, not the hero, so:
- Just strip your clothes off.
He blushed, I thought that was a very cute reaction.
And to think that I started this adventure by being afraid of some douchebag raping me while the morning didn’t arrive…
But don’t worry, and don’t pity him, Arkin enjoyed as much as I did what came after those last words of mine.
(This is NOT a real continuation, there is no continuation for Intergalactic rebels, this was just me, relieving stress.)
Story by: Snow White
(Image: Luis Royo)
Saturday, June 19, 2010
Vou

Vou escrever sobre coisas felizes, sobre pores do sol, luas cheias e lábios vermelhos. Vou escrever sobre ti, sobre como te vejo, sobre a areia e sobre a corrida que foi para podermos ver os últimos raios de sol do dia. Vou escrever sobre isso tudo. Do caminho, não da chegada, porque a claridade não esperou. Vou sonhar só com coisas boas e vou andar de mãos dadas com os seres invisíveis que vivem na minha cabeça. Vou fazer uma lista de coisas que vou fazer.
Vou beijar um rapaz inocente, vou atirar pedrinhas para o rio e viver como se este fosse o meu último dia. Não vou voltar para a minha casa, nem para a tua, nem para a casa de ninguém, vou ficar aqui, a olhar para o dia de hoje registado na minha mente, e vou-me rir sozinha deitada no chão de um lugar desconhecido. Vou criar raízes e tornar-me numa árvore, vou ser o abrigo de pássaros e vou ser a sombra dos humanos que se sentam a meus pés. Vou crescer até tocar na estratosfera. Vou perder-me nos meus “vous”, e olhar de novo para o rapaz inocente que dorme ao lado das minhas raízes teimosas, as que não se deixam enterrar. Vou providenciar-lhe a sombra que preserva os sonos eternos, não quero que ninguém o venha acordar.
Texto por: Snow White
(A imagém é uma pintura de Eugénia Tabosa, Libélula)
Thursday, June 17, 2010
Estações
Quando durmo, durmo como se tivesse morrido, e quando acordo, prefiro sempre ter continuado a dormir. O estado de espírito vai mudando com a mudança das estações, estas que mudam diariamente. As estações humanas, as quatro cores da alma, os quatro motores condutores do corpo. A minha Primavera está sem sol, o meu Verão congelou, o meu Outono vai perdendo cores e o meu Inverno é constante. Gélido e seguro, olha lá para fora, erecto numa varanda de insensibilidade, para a neve que cai no reino que é meu corpo.
Texto por: Snow White
(Imagem de: João Ruas)
Monday, June 14, 2010
Vermelho

Num mundo à parte - Parte 1
Sunday, June 13, 2010
Talvez outra vez.
Saturday, June 12, 2010
Isaura

Rakim

No dia de amanha, levantei-me do meu trono de folhas e soprei neste espanta espíritos que é o único que me percebe neste meu caminho. O meu sopro afastou as tuas magoas, mas a mim, apenas me trouxe mais. Quem sou eu não mais que um caixão vazio? Olho pela janela da minha alma e lá fora, em cima do monte pelado vejo um grupo de seres a cantar.
Senti, a meio de uma noite contigo, falta da luz do dia. Fechei as janelas, que sempre insistias em deixar abertas. Deixaste a chuva entrar no meu espaço, não gosto quando fazes isso. Sons estranhos, que não podem existir, ecoam-me na mente. Sei que entraram por tua causa, e murmuram constantemente numa língua que não entendo.
Essa mesmo língua que passou levemente pelo meu corpo. Esses mesmos lábios pelos quais eu me fui apaixonando. Posso gostar de muita coisa que não compreendes, nem iras compreender em três vidas juntas, mas, nunca, nunca duvides que a única coisa que eu amei foste tu.
Pergunto porque não respondes tu as minhas cartas que tatuo no meu corpo, apenas para te ouvir a responder friamente. Que barco apanhaste tu, para estares tão afastada de mim?
Diz-me! Pois, eu quero afunda-lo, para te salvar.
Nunca te irei deixar afogar.
Passo os meus dedos pelo teu cabelo e afasto os lençóis para contemplar o teu corpo nu. Faço uma pintura mental da tua expressão enquanto dormes. Só assim posso estar próxima de ti, enquanto manténs os teus olhos fechados e viajas por um mundo ao qual não sei se pertenço. Cansada de uma viagem que não me levou a lado nenhum, que me deixou marcas na pele e que não me deixa voltar a aproximar de ti, faço um esforço para não me deitar a teu lado. Pergunto-me em que momento te magoei de tal maneira que não ousas voltar a deixar-me tocar na tua alma. Ouço-te suspirar, talvez consigas ouvir os meus pensamentos nos teus sonhos.
Enquanto dormes corto a palma da minha mão e deixo o sangue cair sobre as tuas costas. Tu não acordas, pois, o meu sangue não é frio. Podes dizer o que desejares. Podes fazer mil e uma coisas para acabar com o meu espelho, mas nunca iras tornar o meu sangue frio. Sentes o saber e as canções de dois mil anos no meu sangue?
Sentes como ele rejeita o teu corpo nu?
Posso estar calado, mas, a minha alma grita eternamente.
Toco nas tuas costas por cima do meu sangue, e mesmo assim, não acordas. Sorrio. No meu sangue desenho a imagem do meu criador e desejo que as folhas do Outono venham e te levem da minha cama.
Já a muito que não te amo.
Já a muito que não passas de uma lembrança.
Sinto que comunicamos mais em sonhos que acordados, é uma sensação estranha. Quero deixar-te, queres deixar-me, estou a chorar mas as lágrimas não escorrem pelo meu rosto. Desta vez vou-te acordar, desse sono que finges ser eterno. Nunca entendi se alguma vez olhaste verdadeiramente para mim, isso deixou de me importar tal como me deixou de importar o teu toque ser frio. Abraço-me a ti com força, acorda! Mordo o teu pescoço, sem qualquer tom de sensualidade, quero magoar-te, ferir-te até te ver morrer um bocadinho por mim. Quero que o teu coração pare de bater. Ponho as mãos sobre o teu peito, sinto-o a acelerar, alarmado. Amor, acorda, não me deixes enlouquecer sozinha.
Texto escrito em conjunto por: Daniel Lopes & Snow White
Friday, June 11, 2010
Esqueci-me
Barragem das glândulas lacrimais

Thursday, June 10, 2010
Entre o Demónio e Eu.

Intergalactic rebels
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