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Tuesday, March 20, 2012

Mais uma noite daquelas


Hoje senti urgência em escrever. Vou tentar apressar-me antes que ela desapareça. Escrever já não me acalma como devia, mas aqui vai:

- Queres ir beber um copo? - Pergunto eu enquanto escovo o cabelo em frente ao espelho.

Enfadado e meio ébrio, ele returque irritado.

- Já viste como é que eu estou? Queres dar cabo de mim?
- Sim. É esse o meu objectivo. Veste as calças e vamos. Gosto de te ver a conduzir bêbado.

E ele ri-se, com aquele sorriso trocista que tanto o caracteriza. Nunca falha em me acelerar o coração. Maldito.

- Como queiras. E ainda não estou exactamente bêbado.
- Eu sei que não.

Mas conduz como um louco, o que vale é que a distância a percorrer é curta. Escolho propositadamente a mesa mais longe do bar e quando ele chega ao fim do primeiro copo de whisky peço logo para que lhe tragam um segundo. Começa finalmente a falar enquanto enrola o primeiro dos últimos cigarros da noite, tem cismado com Sartre e eu gosto de o ouvir. Diz-me que gostou especialmente d”A Nausea” e debaixo daquelas luzes amareladas eu gosto especialmente dele. Mas nunca li Sartre, nem quero ler, senão ele não teria tanto para dizer nem eu tanto para ouvir. Rejuvenesce quando fala do que gosta e a ternura que isso me suscita é demasiado forte para ser contida por isso toco-lhe no joelho. Vou-me sentindo mais segura à medida que a noite avança. A timidez vai sendo disfarçada e escondida e aos poucos vamos ficando mais próximos um do outro. 

E assim ele vai-me parecendo menos um gigante e mais apenas um homem. Levo-o para casa, deito-o na cama e ele abraça-se a mim. Só quando está bêbado é que me abraça com força.

- Sabes, é difícil fazer-te feliz. Mas eu estou a tentar, tu sabes que estou a tentar não sabes? E estou disposto a continuar a tentar.

Então deixo-o adormecer, sem me conseguir mexer debaixo do peso dos braços e pernas dele. Lá acabo por o conseguir beijar enquanto me rio silenciosamente daquela expressão de inocente perdido que ele exibe sempre que adormece.

Monday, July 5, 2010

Narciso


Narciso é bom rapaz, só que sempre que sai à a rua caminha a olhar para o chão, como se as pedras da calçada guardassem segredos que só ele consegue ver. Anda assim Narciso à solta no mundo, taciturno e entretido com ele mesmo. Tem de se embebedar para soltar duas ou três palavras dirigidas à Laura, de quem ele tanto quer gostar, e quando finalmente chega a casa, tem ainda o habitual encontro com o espelho, espera-o a interminável disputa sagrada de todas as noites. “Já te disse que estás bonito e que só tenho olhos para ti”, diz o Narciso do espelho, mas não há meio destas palavras doces acalmarem o narciso em frente ao espelho, que se deita todas as noites descontente a olhar para o tecto.

Vai Narciso à festa da aldeia, agarrado ao seu cigarrinho e a ajeitar, com a mão livre, as calças que lhe caem. Nem reparou que emagreceu de tão interessado que está em fazer passar a mensagem sobre o segredo dos seus ombros encolhidos. Há que fazer os outros entender a extensão da beleza do seu mundo mental. No meio de conversas, de danças e gritarias ele lá se embebeda outra vez, arranca um ou outro sorriso à Laura e chama a minha atenção. Popular este Narciso não? E pensa ele que é só popular com ele mesmo, não, minto, pensa ele que é só popular com o Narciso do espelho.

Apanho-o sozinho, já quando a noite quase se transformou em manhã, desta vez entretido a decifrar que segredos as tábuas da mesa de madeira, à qual ele se sentou, escondem. As saudades que tu deves sentir do Narciso do espelho…

Olha que tu, Narciso de fora do espelho, tão preso estás em ti mesmo que nem vês que os primeiros raios de sol do dia estão a iluminar-te de uma maneira especial. Uma pequena luz foi reservada apenas para ti e tu nem a enxergas.

Vou-me sentar na mesma mesa em que tu te encontras e falar de mim até levantares essa tua cabeça, descontraíres esses ombros, parares de pensar nos teus próprios pensamentos e veres um pouco mais da beleza do mundo fora da tua mente. E depois vou só limitar-me a esperar que, um dia destes, movido pela fúria ou pelo desassossego, te decidas a partir o Narciso do espelho.


Texto por: Snow White

A imagem é: Narciso (1594-1596), por Caravaggio.

Friday, June 25, 2010

Joana, mulher de antigamente.


Joana vivia sem cão nem gato, sem telemóvel e sem telefone, sem televisão ou rádio, sem livros ou revistas. Joana vivia numa casa no alto de um monte. Os aldeãos passavam à beira da residência de Joana e sempre murmuravam entre eles que a moradora era "sossegada mas que em nova tinha sido uma mulher airosa”. Recatada e solitária, Joana facilmente se perdia em memórias, que iam e vinham tão depressa como a noite e o dia. Mulher de antigamente, não teve mais do que um homem, homem este que não lhe deu filhos, homem este que teve mais do que uma, ou duas, ou três mulheres.

E ela perde-se à janela, todos os dias sem falta, com os longos cabelos brancos a acarinharem-lhe o rosto cheio de rugas. Nem um vestígio ali resta de uma antiga menina que corria descalça pelas bermas do rio. Ah Joana, quem és tu hoje aí nessa janela com os vidros partidos a olhar para os montes? Vais apanhar um resfriado que o frio não perdoa.

São as memórias que, melhores do que filmes e mais impressionantes do que os relatos de guerras alheias, vão e vem. Hoje umas sobre os pais, já criaturas de uma outra era, ocupava-lhe a mente, amanhã de certeza que iria lembrar-se da vizinha que morreu quando Joana ainda era uma mulher nova. As pessoas que lhe passaram pela vida desfilam uma a uma pelos desfiladeiros mentais, já perigosos e inseguros devido à idade avançada de Joana. Todos os dias era a vez de uma recordação diferente, às vezes já turva, mas com a intensidade correspondente à tenacidade de uma mulher de antigamente.

E Joana recorda, vezes e vezes sem conta, uma vida passada, não acrescenta ponto nem tira ponto, só recorda, sozinha e sem visitas, sentada na cadeira companheira da sua velhice.

Mesmo quando suspira pela última vez, aquele ansiado último suspiro, as recordações não se perdem, levadas pelo vento que sopra através de uma janela partida. E Joana olha lá para fora, sem saber que já não é mais “Joana, a mulher cega da casa do cimo do monte”.

Texto por: Snow White

Thursday, June 24, 2010

Até nunca mais.


Ando cansada, não faço nada de nada e, mesmo assim, continuo cansada. Enigmático, este meu cansaço constante.

Vou dar uma volta, depois de libertar o “até nunca mais” preso na garganta, ou no emaranhado de neurónios avariados dentro da minha máquina cerebral. Não sei, ao certo, qual a prisão habitual dessas três palavrinhas. Também não estou interessada em decifrar mistérios, pelo menos não agora, depois de ter batido a porta de casa e saído para a rua.

Preciso de ver jardins, mas nunca se vê o que se quer nos momentos certos. Não quando este cansaço insiste em me abraçar desta maneira sufocante. Agora, por enquanto, momentos certos não existem.

Casualmente páro de caminhar, durante esta viagem do “até nunca mais”, e perco-me a observar uma das montras situadas na berma da estrada. É a montra do Romance com o seu item mais procurado, “o homem ou mulher da Tua vida”, em destaque, colado ao vidro a espelhar. Que ridículo, quando já se é velho, e se tem o mínimo de experiencia, sabe-se que já muita água correu debaixo da ponte desde aquele primeiro “homem ou mulher da tua vida”. Se calhar é por isso que esta montra está situada ao lado das outras duas mais conhecidas: A montra do Ódio e a da Vingança.

Entro na lojinha, dirigida por uma velhota excessivamente maquilhada e com um cheiro intenso a perfume francês. Apetece-me tapar o nariz, vou ficar mal disposta com o cheiro a unto e flores. Ela mal me fala, pela minha expressão já sabe que venho devolver alguma coisa.

- Ó menina, aqui não há reembolsos, mesmo que me entregue o que daqui levou, não espere que lhe devolva o que pagou pelo quer que seja.

Ai a voz aguda. Até os meus ouvidos agora sofrem. Mas pronto, resignada, lá tiro a caixinha de memórias boas e más, de mais um romance falhado, da minha mala invisível, e fujo dali para fora o mais depressa que posso. A caixa lá ficou, e vai-se perder, mais dia menos dia, no meio de todas as outras.

Volto para casa, com um bocado do cheiro bafiento de romance estragado ainda entranhado na pele e espero, mais uma vez, por um outro “até nunca mais”. Continuo é cansada, tão cansada como quando saí para dar uma volta. Aquele tipo de cansaço de quem tem sono mas que teima em não se deixar dormir com medo de perder alguma coisa.


Texto por: Snow White

(A imagem é uma pintura de Chris Shields)

Sunday, June 20, 2010

Intergalactic rebels Part 2 (not really)


Note: And this is me, making fun of my own texts and having a blast while at it. Hope you'll enjoy it at least a little bit. A smile and a bow for those that bear this text till the end. My (very personal) parody.


(Please read "Intergalactic Rebels" before reading this "sequel" or nothing will make sense for you.)


So there I was, in that freezing cold weather, with no coat, only in my night t-shirt and barefooted. What a great idea, the one I had just five minutes ago, to come outside for a smoke, and forget the damn fucking keys inside the house. Just perfect, couldn’t love living alone more than at this precise moment. As if. Dammit, not even my imagination was helping me to bare this cold night weather. And, to worsen the situation, of course there was no one walking on the streets. I might as well be living in the woods right now, that the outcome would be the same. Where is a robber when you fucking need one? Or a rapist? No, forget the rapist idea, that wouldn’t be good. “Ok, stop thinking about being raped now”. The night turned creepy with all its shadows, and I would have to accept the situation I got myself into, and manage to just stay quiet till morning. And then, when the sun starts to shine, and the nearest café owners cross the street to open for business, I’ll borrow their phone to call my mom and see if she can bring me my spare set of keys. Fast.

But then, when I was starting to calm down “that” happened. A huge spaceship landed right in front of me. Oh…my…god. The spaceship from my imagination was there, here, in my world, right in front of me. In front of my naked eyes. This can’t be, damn you writers that say that imaginary things can’t come to life. I’ll shove this spacecraft up your asses and hear you say “ohh ohh it isn’t real”. That sounded like you were enjoying it, it’s not suppose to be enjoyable. I’m so screwed now, I’m a tough ass chick when the world I’m living in is all in my head, but outside, outside I’m just a short haired woman, skinny and small. She’s going to crush me. Oh yes she will, I could see the preview of the next minutes playing in my mind. “Ok, act tough, all rests in acting as you act in your imagination”.

- You fucking Whore! – She screamed, while she jumped from the spaceship to the ground.

I froze. Yeah I fucking froze, she was tall, with long hair that almost reached her waistline, and with an attitude as fierce as a wild cat's. Her eyes were menacing.

- You can’t be here. – I must say I didn’t sound very convincing while speaking, with my voice shaking a bit and with goose bumps all over my body. But, as a side note, the cold weather was partially responsible for that last part too.

- You bitch, unprogram him! Now! Or I’ll blast your brain! – And she pointed the very real gun, that came from my imagination, right at me.

- What? “Unprogram”? What the fuck do you mean with that? It’s not like I can actually do that, technically I never even touched him. That’s not even a word. – People sometimes aren’t very coherent when they are scared, so pardon my English will you?

And, it was then, that I finally saw him. He came from my imagination but he was different from how I imagined him. Was that even possible? His hair was darker, almost black, and his eyes were also black, or a very dark green, and he seemed more fierce than the sad human creation that was once only living in my mind. To sum up the description, he was hot, trust me, smoking hot. Tall as a tree and with a body that seemed hard as one. He looked at me with an angry stare, and I felt my knees shaking a bit. Bloody hell, what was I thinking when I discarded him in my mind?

But then, I came to my senses and there I was, with no keys to enter my house and being kidnapped by my imaginary beings.

- Take us inside. Now. - She ordered me in a cool tone of voice now.

- I can’t, even if I wanted I wouldn’t be able, I left my keys insi…

“BAM”, and the man, I’ll call him a man now and no more a discarded creation, had just knocked down my entrance door. The nice and pretty blue door of my house was ruined. He had more manners when he belonged to me. Oh God, have some mercy on my being... I liked it, his attitude, so rude and sort of sexy. He wasn’t very amused though.

Well, at least my problem was half solved, I only needed to call someone to fix my door in the morning. That is, if I was still alive in the morning. But now, inside my comfortable house and sited on my black couch, with the light of my computer gleaming on top of the table right next to me, I felt much better.

- What is this? – She asked me while pointing at my computer. – Can this unprogram him?

- I told you, I can’t do that. This is just a computer, I write my stories in there, I wrote about you both in there, there’s nothing I can do for him.

And then she fell to her knees, it was a pitiful sight. It made me feel superior right away.

- Then I can’t do anything for him too, he doesn’t respond to me, he’s mechanic, he follows your orders, he says “I love you” with his mechanic voice and I feel like I’m going crazy. I’ll turn insane soon if he doesn’t stop acting like that. I’m not a little girl anymore, I need a man, lust, love, pleasure and some kind of desire. This shit can’t be one sided. I can’t take it anymore.

It was all very dramatic, and for a second there, I feared that the brains she would probably blast that night, it would be her own.

Then, I got up from the couch, and patted her in the back. To my surprise she didn’t move. Then I had an idea, not brilliant, but they came from my mind right? So anything could work.

- My darling, I think that you just need a pet, and trust me, in this world you can have any man you want as a pet. – It was true, she was insanely beautiful.

- I want him. Unprogram Arkin for me.

“Arkin”, so that was the name of the man standing there, at the entrance of the door, looking at both of us with a cold gaze. He was a “thing”, passed on from hand to hand. That last thought made my heart feel a sharp pain for a second or two.

- Oh jeez, will you stop that, I can’t unprogram him or whatever you want me to do, can’t you understand that by now? Plus, I really need to pee. Desperately. Can I go alone or will you have to escort me to the bathroom?

- Just go. – she seemed disgusted by my words.

While in the bathroom, I took my sweet time, and, before I left, I even brushed my hair and my teeth.

At the living room, were the three of us were staying before, only Arkin remained. And he spoke, for the first time.

- She left me to you.

- Oh, she did?

I could imagine her pulling herself together and standing up. And I could see her in my mind saying a brief goodbye to him and getting out of my house without looking back. I must admit that I’m quite found of her, she’s truly tough. Outside my door, or, what’s left of it, the spaceship made little sound while flying away.

- What do you want me to do? – He said, in a very defiant tone.

“What the fuck? You are my creation, don’t talk to me like that”, I thought. He didn’t seem mechanic at all, just revolted and probably hurt. He lived in my imaginary memories, no big deal for me, but his whole life were those imaginary things. In the end, it really was a bit sad. But, honestly, who cares? I’m the writer, not the hero, so:

- Just strip your clothes off.

He blushed, I thought that was a very cute reaction.

And to think that I started this adventure by being afraid of some douchebag raping me while the morning didn’t arrive…

But don’t worry, and don’t pity him, Arkin enjoyed as much as I did what came after those last words of mine.



(This is NOT a real continuation, there is no continuation for Intergalactic rebels, this was just me, relieving stress.)


Story by: Snow White

(Image: Luis Royo)

Saturday, June 19, 2010

Vou


Vou escrever sobre coisas felizes, sobre pores do sol, luas cheias e lábios vermelhos. Vou escrever sobre ti, sobre como te vejo, sobre a areia e sobre a corrida que foi para podermos ver os últimos raios de sol do dia. Vou escrever sobre isso tudo. Do caminho, não da chegada, porque a claridade não esperou. Vou sonhar só com coisas boas e vou andar de mãos dadas com os seres invisíveis que vivem na minha cabeça. Vou fazer uma lista de coisas que vou fazer.

Vou beijar um rapaz inocente, vou atirar pedrinhas para o rio e viver como se este fosse o meu último dia. Não vou voltar para a minha casa, nem para a tua, nem para a casa de ninguém, vou ficar aqui, a olhar para o dia de hoje registado na minha mente, e vou-me rir sozinha deitada no chão de um lugar desconhecido. Vou criar raízes e tornar-me numa árvore, vou ser o abrigo de pássaros e vou ser a sombra dos humanos que se sentam a meus pés. Vou crescer até tocar na estratosfera. Vou perder-me nos meus “vous”, e olhar de novo para o rapaz inocente que dorme ao lado das minhas raízes teimosas, as que não se deixam enterrar. Vou providenciar-lhe a sombra que preserva os sonos eternos, não quero que ninguém o venha acordar.


Texto por: Snow White

(A imagém é uma pintura de Eugénia Tabosa, Libélula)

Thursday, June 17, 2010

Estações


Quando durmo, durmo como se tivesse morrido, e quando acordo, prefiro sempre ter continuado a dormir. O estado de espírito vai mudando com a mudança das estações, estas que mudam diariamente. As estações humanas, as quatro cores da alma, os quatro motores condutores do corpo. A minha Primavera está sem sol, o meu Verão congelou, o meu Outono vai perdendo cores e o meu Inverno é constante. Gélido e seguro, olha lá para fora, erecto numa varanda de insensibilidade, para a neve que cai no reino que é meu corpo.

Os dias são curtos, e as noites, as noites duram para sempre, porque, enquanto duram, parecem ser incessantemente eternas. Uma eterna e imperturbável solidão, que me permite pensar em palavras lidas em livros sem páginas.

Desço as escadas, numa lentidão metódica e calma, o Inverno não é apressado e a noite nunca acaba. Debato-me, desanimada, com o problema que é o esgotamento das minhas folhas mentais, que vão, a pouco e pouco, perturbadoramente, deixando de ter mais páginas, e eu, vou assim, deixando então de ter lugar onde escrever. Anseio por uma primavera com sol, com árvores cheias de folhas verdes e com risos humanos.

Caminho, descalça na neve, pensando em encontros que não se vão dar com pessoas que não existem, por isso, para compensar a solidão, cumprimento a neve num tom de voz de Verão. E ela, em jeito de resposta, vai-se derretendo enquanto eu continuo a andar. Os riachos do meu reino voltam assim a ser riachos e o vento desiste de fustigar o meu rosto. A geada cristaliza e, por solidariedade com as outras três estações, tenta adornar os ramos das árvores nuas, criando folhas de Primavera transparentes.

E hoje, agora, quando me vejo a aproximar do precipício do meu reino e volto as costas para o abismo, olho à minha volta. As nuvens não estão negras, o sol espreita por entre elas, os cumes das montanhas estão brancos, os riachos tornaram-se rios, as árvores raquíticas e estaladas do frio estão cheias de folhas cristalinas, e o chão, o chão que piso, é verde.

Finalmente, todas as estacões são agora uma só. Envolta numa intensa sensação de paz interior, e sem pensar mais, deixo-me cair no abismo com o rosto voltado para o céu.



Texto por: Snow White

(Imagem de: João Ruas)

Monday, June 14, 2010

Vermelho


No teu castelo, isolado do mundo, onde só tu habitas, a força da tempestade na escuridão cerrada da noite embate nos vidros das enormes janelas da varanda da tua torre. Uma cadeira, chamas de um fogo que já se começa a extinguir, um copo de vinho na tua mão e um quadro, do qual não tiras os olhos, completam o teu pequeno mundo.

Tens um encontro marcado, com alguém que não assume a sua própria existência. Um esgar nos teus lábios, uma tentativa de sorrir, sentes a tua excitação a crescer à medida que a noite avança com a sua usual insuportável lentidão. Mordes os lábios, o nervosismo à flor da pele faz-te encher de novo o teu copo com vinho. Fechas os olhos, a tempestade amaina, começas a vociferar contigo mesmo, sabes que Ela prefere temporais e chuva.

Tiras a gravata e desapertas um dos botões da tua camisa. O teu cabelo acaricia o teu pescoço e perguntas-te se não A aguardas em vão, a espera é sempre penosa demais, os sentimentos sofreram alterações dentro de ti, mas sorris, sentas-te na tua cadeira e continuas a beber o teu vinho. Não te deixes dormir, não guardarás memórias se te deixares dormir. Os teus olhos mantêm-se teimosamente abertos e fixos no quadro à tua frente.

Uma pintura de uma mulher. Que mais te prenderia tanto o olhar? Vestido vermelho, flores vermelhas, lábios excessivamente vermelhos, uma expressão séria no meio de tanto escarlate destoava com o resto do cenário. Quadro feito por um mau pintor. Os teus gostos nunca roçam a vulgaridade, mas este prendia-te mais a atenção que qualquer outra obra de arte aclamada. O desejo impossível de a fazeres sorrir levava-te todos os dias à mesma hora a subir os degraus até ao cimo daquela torre. Depois, de manhã, tudo não parece passar de um sonho e a meio da tarde a palavra “impossível” encerra o assunto. Mas, mal os primeiros raios de luz começam a desaparecer, já o teu coração ameaça explodir de ansiedade.

Mas hoje fitaste-a com uma expressão calma enquanto a viste aproximar-se de ti, deixando o vermelho do quadro para trás. Viste-a pegar no teu copo, esquecido no chão, e beber o resto do vinho que deixaste. Quase todas as noites o mesmo cenário se repetia mas nunca lhe ousaste tocar ou falar. Por vezes, o olhar dela correspondia à busca incessante do teu. Nunca tentaste dar os passos que vos separavam e tocar-lhe, tinhas a certeza de que ela se iria desvanecer no ar ou que os teus dedos atravessariam o seu corpo. Querias mantê-la real para sempre, “olhar era suficiente”, repetiste, centenas de vezes para ti mesmo, noites e noites a fio.

O vestido vermelho, comprido e simples, largo demais para o corpo que cobria, tingiu o chão com aquela cor quente, enquanto ela se sentava com a cabeça encostada à janela. E, mais uma vez, limitaste-te a contempla-la. Confinado no teu canto, davas sempre por ti a admirar aquele rosto constantemente inexpressivo e sem brilho no olhar. Não chovia, a noite serena era desesperante como plano de fundo deste ciclo interminável.


Texto por: Snow White

Num mundo à parte - Parte 1


Marília chegou a casa furiosa e triste ao mesmo tempo. Passou pela cozinha a correr e fingiu não ouvir quando o pai lhe perguntou se já sabia das notas. Pura e simplesmente correu para o andar de cima. “Não, hoje não”, e empurrou a porta do quarto arremessando a mochila para o chão. Ligou o leitor de CDs e atirou-se para cima da cama a ouvir Pink Floyd. Agora não queria falar das notas, nem do facto de estar reprovada a matemática. Não ia de certeza realizar os sonhos dos outros e ir para medicina. Isso não constava na sua própria lista de sonhos, aliás a sua lista era bem reduzida, só continha três itens e os três pareciam cada vez mais inalcançáveis. Detestava a escola onde andava, a turma em que estava inserida, as disciplinas que tinha, especialmente a puta da matemática à qual acabara de tirar 1. Não, nada estava certo na sua vida, queria coisas diferentes, um estilo de vida diferente, uma cidade diferente, amigos com quem pudesse falar de tudo e não só das novas colecções de “roupas giríssimas” que tinham acabado de sair e do quanto é altamente aquele filme fútil que toda a gente viu. Não, ela queria algo diferente, tudo à sua volta estava errado e distorcido. Esticou-se na cama e tentou mentalizar-se de que tinha, pura e simplesmente, acabado de reprovar, a sua primeira reprovação durante toda a sua vida escolar… Isso não lhe podia estar a acontecer, parecia um pesadelo, os pais iam ficar furiosos por causa daquilo e a irmã ia fingir que a defendia mas só ia acabar por piorar tudo.
Era, sem duvida, o pior primeiro dia de férias de sempre, só lhe apetecia refugiar-se naquele canto da mente cheio de fantasia e contos de fadas em que ela se habituara a refugiar quando era criança. Lá é que se estava bem, tinha amigos e era uma guerreira japonesa, influencia de ler tanta mangá diariamente, e protegia um príncipe atraente e interessante chamado Maurício, nome que Marília adorava. E depois passava horas e horas a inventar cenários onde toda a gente a admirava e achava bonita. Um mundo imaginário onde ela não tinha os dentes tortos, e onde era aceite e ninguém a achava esquisita. Inventava um grupo de amigos que a acompanhavam em aventuras e onde eram todos os heróis do seu mundo imaginário.
Mas, com o passar dos anos, o seu mundo imaginário foi ficando mais fraco e foi relutantemente trocado pelo mundo real, onde as pessoas eram frias e cinzentas, onde não existiam grandes planícies para andar a cavalo e onde nenhum rapaz demonstrava qualquer interesse por ela. Não que isso a incomodasse muito, na realidade sim, incomodava, mas Marília fazia de conta que não. É mais uma daqueles pessoas que encontra refúgio em mentir a si própria. Vivia a sua vida, escrevia os seus poemas e ia deixando o mundo da fantasia cada vez mais para trás. No entanto, em momentos de tristeza, tentava sempre refugiar-se nesse cantinho especial da sua mente e já quase esquecido. Mas, a inegável verdade, é que ela sempre achara os cenários construídos pela sua imaginação mais sua casa do que o próprio cenário real que a rodeava naquele mesmo quarto.
Voltou-se na cama e olhou para o tecto coberto de posters e desenhos. Tentara ao máximo tornar aquele espaço num reflexo da sua personalidade mas não havia meio de o conseguir, faltava sempre qualquer coisa, um grande pedaço aliás. Mas o quê? Que raios lhe faltava para chegar a casa e se sentir em casa?


Texto por: Snow White
Imagem por: James Jean

(Nota: Vá lá, vão "easy on me", eu adoro fantasia, leio livros de fantasia todos os dias e, lá no fundo, ainda sou excessivamente teen, por isso perdoem-me esta historinha de fazer arroz, que vair continuar, repito, VAI CONTINUAR).

Sunday, June 13, 2010

Talvez outra vez.


Talvez só me importe comigo mesma, talvez não queira mesmo saber de ti, nem do que pensas, do que sentes ou do que odeias e amas. Talvez tudo o que dizes sobre mim seja a mais pura das verdades, talvez seja essa a única verdade que alguma vez existiu entre nós.

Voltas-me as costas, dou comigo a ver-te a afastares-te de mim. Imagem que se repete vezes e vezes sem conta enquanto sonho com momentos que não aconteceram entre nós. Mas, como só penso em mim mesma, acordo todas as manhãs à mesma hora, tomo banho, visto-me, bebo um descafeinado e saio para enfrentar um mundo, que se distorce e desfoca cada vez mais a todos os momentos que passam. Começo a ficar convencida de que já não tenho saudades tuas, de que não desejo o teu toque e esqueço a tua voz simplesmente porque não a voltei mais a ouvir.

Vendedores de rua, com faces para as quais se olha sem realmente se ver, no meio da confusão de todos os outros rostos com que me cruzo nas ruas, tentam abordar-me, marcar-se no meu tempo de vida sem sequer se aperceberem disso. “Só penso em mim mesma”, o pensamento não pára de se repetir, por isso enfureço-me, não me façam esperar, não me façam perder tempo, tenho que viver, lembrar-me, esquecer-me, procurar-me e amar-me.

Tu e eu, tu que me voltaste as costas antes de eu pensar em voltar as minhas a ti sabes, sempre soubeste, tudo o que temos são conversas sem grandes significados e sexo. Mas tudo está bem, tem de estar, sempre soube que não sou uma pessoa profunda, “só penso em mim”. Quero viver livremente, não estar presa a nada nem a ninguém. "Sou o que sou", disse-te eu, depois daquela nossa primeira troca de beijos na boca.

As ruas são longas demais para serem percorridas todos os dias. Um dia acho que vou simplesmente parar. O destino ao qual tenho de chegar não pára de se tornar incerto, tão desfocado e distorcido, como tudo o resto que me rodeia. Porque é que tudo começa a fazer mais sentido agora disforme? Talvez tenha de saber o que são coisas horríveis para conseguir entender o que é belo. Tento sorrir enquanto me dirijo ao encontro de um dia igual a todos os outros, sem ti na minha vida, a quem eu não amei, pessoa que me voltou as costas.

E porque é que foi, neste dia igual a todos os outros, que as ruas se tornaram mais difíceis de percorrer? A distancia é a mesma, o corpo que as percorre é o mesmo, mas hoje, só hoje, estou cansada, talvez seja o peso do ar, ou talvez não seja isso, talvez não aguente mais é com o peso do meu próprio egoísmo na alma, que agora se decidiu revelar.

Tiro os óculos e olho para o céu, através de uma face repleta de gotas de suor, numa manhã amena. O céu. Não há lá nada mais a não ser o próprio ar, é esse o céu que nos espera. Maldito ar. Pensamentos agridem-me, perseguem-me. Parar a mente, encontrar-te a ti, minha antiga calma, meu antigo corpo, que costumava rodear num abraço enquanto dormia. Talvez deva chorar, ponderei, parece-me o mais acertado. Chorar, desidratar, sentir os lábios a ressequir.

Os olhares dos rostos disformes atormentam-me, e acabo por soluçar encostada a uma parede que não reconheço. Sei que estou a cair no grotesco, a misturar-me com a massa disforme que percepciono como sendo o nosso mundo.

Olhar para ti e não ver mais o teu rosto, não me lembrar mais da tua voz. O que foste tu afinal? Uma continuação de mim? Porque me pergunto agora sobre ti outra vez? Sempre tarde mais. Sorrio um sorriso cansado.

Ouço então algo. Algo familiar no meio de uma confusão de sons também disformes. “Não te atrevas a parar de respirar”, é o som da tua voz, áspera, fatigada e gasta, a inundar-me. Reconheci-te. Sei que me levantaste, sei que percorremos as mesmas ruas de volta. Mais uma vez, encontraste-me. Porque me amas, porque me amaste? Em que tempo verbal nos encontramos agora? Vejo as tuas costas a voltarem-se mais uma vez para mim, e, só aí, finalmente reparo, que elas são a única imagem nítida neste meu mundo disforme.


Texto por: Snow White
(Imagem por: James Jean)

Saturday, June 12, 2010

Isaura


Lúis Miguel Ferreira, que completara vinte e três anos ha dois dias atrás, começava o dia às seis da tarde, bebia um café, comia uma fatia de pão sem nada, beijava o quadro que os pais lhe compraram quando ele tinha nove anos e dirigia-se, por fim, para o seu próprio atelier. De momento era pintor. Não era excepcional nessa actividade. Foi um evento marcante, a compra do dito quadro. No dia doze de Fevereiro, do ano de 1995, o jovem Luís deparara-se com a mulher da sua vida. Sim, o amor não tem idade, mas normalmente acontece entre dois seres humanos, não entre um rapazinho de nove anos e uma tela no meio da rua de um dia de inverno. Mas fiel aos seus sentimentos e princípios, Luís Miguel não arredou pé do lado da mulher de papel e do “senhor de barbas” que a tentava vender por um preço que Joana Ferreira considerava um verdadeiro roubo. Mas, felizmente para todos, dinheiro não era algo que escasseasse na família Ferreira e, finalmente, após quinze longos minutos de birra por parte do menino Luizinho, Joana comprou o maldito quadro com o dinheiro que o seu marido André Ferreira, médico dermatologista, lhe dispensava todos os meses. Nunca, a então jovem mãe, pensou que isso seria o mais próximo de um relacionamento que o seu amado filho iria ter nos catorze anos que se seguiram. “Isaura”, nome que o jovem pusera à mulher representada na tela, acompanhou-o durante todos os momentos da sua vida, e desde há uns três anos para cá, a obsessão só aumentava, principalmente depois dele se ter cruzado com Francisca Gonçalves.

E quem era esta? Agora é a vez de falar sobre a rapariga que completa esta história.

O que ia na cabeça de Francisca? A altura ideal para o que quer que seja é tão difícil de se encontrar, que acaba por ser sempre tarde demais, ou cedo demais, para se iniciar algo do qual se goste realmente. E era este o pensamento matinal de Francisca Gonçalves de 29 anos, durante o duche, antes de ir para o trabalho. Trabalhava num desses mini mercados já há seis anos, daqueles que se vê por aí, a serem completamente ameaçados pelos gigantescos monstros que são as grandes superfícies comerciais. Nunca foi para a faculdade, ou melhor, foi, mas um semestre chegou para Francisca perceber que aquela não era vida para ela. E então, vivia cada dia que passava sem quaisquer planos de futuro, de romance, e, por vezes, na mais completa apatia interior. Apenas interior porque exteriormente o seu sorriso era usado constantemente, tão constantemente que até a enganava a ela própria, por isso, na maioria do tempo Francisca acreditava que até era feliz. E porque não haveria de ser? Como poderia dizer que se sentia sozinha durante todo o dia? Os seus pais eram vivos, tinha amigos e vivia num ambiente sempre repleto de pessoas. Como não conseguia justificar o sentimento de solidão, convenceu-se a si própria de que ele não existia.

Imaginem agora o espanto da rapariga, quando Luís Miguel, com os seus sapatinhos de vela e petrificado com um Twix na mão, completamente crédulo de que tinha acabado de encontrar a sua “Isaura”, lhe desmaia mesmo em cima do balcão depois de ela o atender. A chatice que isso não foi, mas Francisca, completamente no controlo da situação, esbofeteia-o um bom par de vezes, ou mais, sem o mínimo de gentileza, até o rapazito recuperar os sentidos.

Dois meses depois, quando finalmente ela se convenceu de que Luís Miguel não era um louco perigoso, lá começaram a sair juntos. O rapaz entornava bebidas, deixava a comida cair nas constantes camisinhas às riscas que usava e não fazia a mínima ideia do que haveria de fazer com a Francisca. Um suspiro de irritação, uma ou outra reprimenda, e os dois lá se entendiam. Entre conversas superficiais, filmes de comédias românticas, ou sessões de cinema francês que o Luis Miguel tanto adorava, os dois lá se foram tornando inseparáveis. E um dia Francisca apercebe-se de que aquela sensação de solidão tinha passado, e fecha a loja toda sorridente. Não com o sorriso de atender clientes, mas sim com o tipo de sorriso que se estende mesmo até aos olhos e cria pés de galinha.

Vão para a cama, num quarto apenas com uma cama e cheio de maus quadros pendurados nas paredes. Luís Miguel, consegue aguentar-se dentro de Francisca uns dois minutos e depois enrola-se nele mesmo a chorar. Isto da perda de virgindade para um homem é sempre um assunto delicado, principalmente quando o homem em questão é o Luís Miguel Ferreira. Ele vira-lhe as costas e ela abraça-o por trás e faz-lhe festas no cabelo, e, quando isso se prova infrutífero para apaziguar a criatura, Francisca sussurra-lhe ao ouvido palavras doces e beija-lhe o rosto. Escusado será dizer que foi como recitar um feitiço e o sexo foi melhorando à medida que a noite passava.

Mas teve de chegar o dia, em que o Luís Miguel, inconscientemente, tratou a Francisca por “Isaura” logo a seguir a uma confissão de amor . E ela, mulher decidida e furiosa, vestiu-se em cinco minutos e deixou-o sozinho e nu na cama onde tinham acabado de fazer amor. Lentamente, mas o mais apressadamente que podia , o rapaz vestiu as calças e foi à janela ver se ainda a via. E viu, Francisca ainda estava bem ao seu alcance. E não foi preciso mais nada, ele voou pelas escadas abaixo sem camisa e sem sapatos e chamou-a ate estarem a um braço de distância um do outro.

E os olhares do povo? Eram os pedintes e os empresários a assistirem à cena. E Luís Miguel até se põe de joelhos a implorar para que Francisca voltasse com ele para casa. A rapariga, vendo-se rodeada de tantos olhares, e já meia comovida, lá o segue de volta.

E o mítico quadro é revelado, “Isaura” é posta em frente de Francisca e a sua historia é contada. Incrédula, a rapariga mal arranja palavras para definir tal situação.

Mas o mais interessante, e que fez com que ela abraçasse o seu amado fortemente e com ternura, foi que a “Isaura” do Luís Miguel não tinha qualquer semelhança com a imagem de Francisca Gonçalves.


(Apetecia-me escrever qualquer coisa diferente e saiu isto.)


Texto por: Snow White
(Imagem de João Ruas)

Rakim


No dia de amanha, levantei-me do meu trono de folhas e soprei neste espanta espíritos que é o único que me percebe neste meu caminho. O meu sopro afastou as tuas magoas, mas a mim, apenas me trouxe mais. Quem sou eu não mais que um caixão vazio? Olho pela janela da minha alma e lá fora, em cima do monte pelado vejo um grupo de seres a cantar.

Senti, a meio de uma noite contigo, falta da luz do dia. Fechei as janelas, que sempre insistias em deixar abertas. Deixaste a chuva entrar no meu espaço, não gosto quando fazes isso. Sons estranhos, que não podem existir, ecoam-me na mente. Sei que entraram por tua causa, e murmuram constantemente numa língua que não entendo.

Essa mesmo língua que passou levemente pelo meu corpo. Esses mesmos lábios pelos quais eu me fui apaixonando. Posso gostar de muita coisa que não compreendes, nem iras compreender em três vidas juntas, mas, nunca, nunca duvides que a única coisa que eu amei foste tu.
Pergunto porque não respondes tu as minhas cartas que tatuo no meu corpo, apenas para te ouvir a responder friamente. Que barco apanhaste tu, para estares tão afastada de mim?
Diz-me! Pois, eu quero afunda-lo, para te salvar.
Nunca te irei deixar afogar.

Passo os meus dedos pelo teu cabelo e afasto os lençóis para contemplar o teu corpo nu. Faço uma pintura mental da tua expressão enquanto dormes. Só assim posso estar próxima de ti, enquanto manténs os teus olhos fechados e viajas por um mundo ao qual não sei se pertenço. Cansada de uma viagem que não me levou a lado nenhum, que me deixou marcas na pele e que não me deixa voltar a aproximar de ti, faço um esforço para não me deitar a teu lado. Pergunto-me em que momento te magoei de tal maneira que não ousas voltar a deixar-me tocar na tua alma. Ouço-te suspirar, talvez consigas ouvir os meus pensamentos nos teus sonhos.

Enquanto dormes corto a palma da minha mão e deixo o sangue cair sobre as tuas costas. Tu não acordas, pois, o meu sangue não é frio. Podes dizer o que desejares. Podes fazer mil e uma coisas para acabar com o meu espelho, mas nunca iras tornar o meu sangue frio. Sentes o saber e as canções de dois mil anos no meu sangue?
Sentes como ele rejeita o teu corpo nu?
Posso estar calado, mas, a minha alma grita eternamente.
Toco nas tuas costas por cima do meu sangue, e mesmo assim, não acordas. Sorrio. No meu sangue desenho a imagem do meu criador e desejo que as folhas do Outono venham e te levem da minha cama.
Já a muito que não te amo.
Já a muito que não passas de uma lembrança.

Sinto que comunicamos mais em sonhos que acordados, é uma sensação estranha. Quero deixar-te, queres deixar-me, estou a chorar mas as lágrimas não escorrem pelo meu rosto. Desta vez vou-te acordar, desse sono que finges ser eterno. Nunca entendi se alguma vez olhaste verdadeiramente para mim, isso deixou de me importar tal como me deixou de importar o teu toque ser frio. Abraço-me a ti com força, acorda! Mordo o teu pescoço, sem qualquer tom de sensualidade, quero magoar-te, ferir-te até te ver morrer um bocadinho por mim. Quero que o teu coração pare de bater. Ponho as mãos sobre o teu peito, sinto-o a acelerar, alarmado. Amor, acorda, não me deixes enlouquecer sozinha.

Texto escrito em conjunto por: Daniel Lopes & Snow White

Friday, June 11, 2010

Esqueci-me


Esqueci-me de sorrir para o bando de desconhecidos com quem vou sair hoje. E assim, de repente, já não gostam de mim. No meio de uma confusão ou outra, a coscuvilhice começa nas minhas costas. Então saio do café para fumar um cigarro e deixo-os falarem mal de mim à vontade. A tudo uma pessoa se pode habituar. Uma mulher habitua-se a levar porrada do marido e a ainda achar que é por amor, e um cão habitua-se a andar atrás daquela vizinha velha por aquele pequeno pedaço de pão que o alimenta uma vez por dia, mas que não faz com que deixem de se ver os ossos das costelas.

E lá fora estou em paz, o tempo não está bom mas não está a chover, encosto-me a uma parede e prendo o cabelo com os mesmos elásticos que uso há quatro anos. Foda-se, esta noite vou ter que me aguentar e voltar lá para dentro. Acabo o cigarro tão depressa que nem sequer noto aquele movimento automático de ir buscar outro ao maço. Ah não, não vou fumar mais do que um, e deixo-o cair no chão húmido da chuva que se fez sentir há uma horinha atrás. Lá se foi o meu ultimo cigarro da noite.

Se calhar devia dizer que me veio o período, que estou com dores insuportáveis, e simplesmente ir-me embora. Os minutos vão passando e eu não saio do sitio em que estou parada. Sozinha, cá fora à noite, a olhar para um céu sem estrelas.

É então que um homem sai de repente lá do cafézito, e quase colado a mim acende também o seu cigarro. Trocamos uns olhares, nada de especial, só para notarmos a presença um do outro. E o tempo passa, por esta altura ele já tinha parado de fumar há muito tempo, e só soltava uma tossidela de vez em quando.

“Não vai voltar lá para dentro?”, pergunta-me ele do nada, num tom nem baixo nem alto e eu olho-o espantada e não respondo. Que mau hábito este. Não vou fazer o esforço de juntar palavras para uma resposta ácida agora, estou mesmo sem paciência.

Ninguém nos vem procurar cá fora, nem a mim nem a ele e, num silêncio estranho, continuamos os dois parados no mesmo lugar, eu perdida em pensamentos e ele a tentar evitar ataques de tosse. “Só me faltava mais esta”.

“Eu conheço o teu tipo”, diz ele já num tom de voz mais desrespeitoso. Ah só deus sabe o quanto eu adoro teorias de bêbados. Mas mesmo assim lá fico, sou tão teimosa. E não é que começa a chover e nenhum dos dois arreda pé.

Agradeço pela chuva de verão e pelo seu efeito, que me permite estar cá fora só com uns jeans e uma camisola de manga curta sem sentir frio. Às vezes até limpa a alma e afasta as melgas. Mas o homem também era teimoso, ajeitava os seus oculinhos todos retro cheios de pequenas gotas de chuva, e lá estava, em silêncio e cabisbaixo encostado à parede.

“Dá uma volta comigo, só andar, não estou sóbrio o suficiente para tentar o que quer que seja contigo”. E eu, não sei porque, solto o cabelo, mordo o lábio inferior e respondo: “Foda-se, vamos lá então.”

Ele só era uns centímetros mais alto que eu, magro e olhava para o chão enquanto andava e, depois de uns minutos de estranheza, o passo a que andávamos finalmente encontrou um ritmo certo. Achei tão burlesco, dois desconhecidos a passearem pela baixa do Porto com uma chuva miudinha a cair. Ai estes impulsos de verão, misturados com essa tua camisola amarela estão a fazer os meus lábios contorcerem-se num sorriso.

E então conversamos, sem reservas. Começamos por falar do tempo, da cidade e depois de filmes e livros. E tu falavas e falavas, e sem trocarmos os nossos nomes e informações sobre o modo de vida de ambos, chegávamos às mesmas conclusões. Somos pessoas criadas atrás de ecrãs de computadores e de televisores. Pertencemos a esta nova espécie, que diz o que sente por outra pessoa através de um comentário deixado no Facebook.

Entramos num café, tu pedes uma imperial e eu peço um fino. Exactamente a mesma coisa, dita de maneiras diferentes e, olhamo-nos cara a cara, através de um embaraço disfarçado. Olhar nos olhos de uma pessoa é uma tarefa complicada para ambos, mas as palavras saem sem nenhum enrolamento da língua. E assim conheço-te e falo contigo sobre o que me preocupa, deixa feliz e deixa triste. Tu fazes o mesmo e arrancas-me sorrisos verdadeiros.

Pela manhã, apanhas o comboio que te leva para a tua terra e eu, cheia de sono, mas completamente desperta, corro para casa e atiro-me para cima da cama sem me despir. Eventualmente adormeço, e só quando acordo, já a horas de ter que ir almoçar, é que me lembro que me esqueci de te perguntar quem eras.

Não importa. Momentos assim não devem ser repetidos, porque ou se vão estragando ou se vão tornando num vicio destrutivo, tal como aquela nossa bebida alcoólica favorita.

Texto por: Snow White
(Imagem de James Jean)

Barragem das glândulas lacrimais


Chorei, ao fim de cinco anos, chorei tanto que foi como se as barragens de um rio tivessem rebentado. Chorei por amor perdido, por amizades acabadas, por ódios infundados, pelas cadeiras a que chumbei e pela minha dificuldade em ser aceite na realidade do mundo. Vi, recentemente, num filme uma rapariga a perguntar a outra onde é que ela vivia. A resposta foi esta: “Vivo principalmente na minha cabeça”. Sinto-me assim, vivo principalmente na minha cabeça e quando vou lá para fora, para o absurdo mundo real, custa-me ter que estar com mais do que uma pessoa de cada vez, e de me tentar “normalizar”. Continuo dentro da minha bolha, neste meu mundinho seguro, que me conseguiu impedir de chorar durante cinco anos seguidos.

E ouço-te agora dizer que sou a única pessoa de quem podes gostar sem ter, que não existe para ti nenhuma necessidade de me teres ou tocares. Sou o quê? Um daqueles seres translúcidos de um filme de ficção cientifica futurista? Pois, ahh, tens razão, sou irreal não é? Uma vez que não existo na realidade do teu dia a dia, deves, muito provavelmente, ter toda a razão.

Porque não tenho perfil de donzela em apuros, e porque apenas deixo o meu cabelo crescer por causa da preguiça de ter de o cortar e porque sinto a minha mente a derreter, vejo o chão a fugir debaixo dos meus pés. E pensava eu, no meio de divagações infantis, que iria ser freira, ou tornar-me em alguém que realmente faria diferença neste mundo real. Agora rio-me, por entre as lágrimas, ai este estúpido rebentamento da barragem das minhas glândulas lacrimais, e sinto-me ridícula enquanto a minha face vai ficando cada vez mais avermelhada do embaraço. Ao menos, serve-me o consolo de ser um embaraço não testemunhado.

E perdi-me. Já se sabe que os meus pensamentos são incoerentes, termino-os na mente e não vou a tempo de os passar para o papel de um bloco de notas que me custou 50 cêntimos na papelaria mais próxima. E lá vou eu pela ruas, a anotar o que me interessa e mesmo o que me desinteressa, na busca incessante de uma ideia que me acalme a mente e alma. Que, lá bem no fundo, se calhar nem são duas coisas distintas.

Mas como estou para aqui a cuspir o meu coração, num perfeito texto sem alicerces, decido parar antes que as minhas próximas palavras se assemelhem aos meus gritos mentais que por mais que os tente abafar, há sempre aqueles furinhos que fazem com que o som interior tente romper por entre as inexistentes frinchas do meu crânio.

Texto por: Snow White
(Imagem de João Ruas)

Thursday, June 10, 2010

Entre o Demónio e Eu.


“Preciso de te ver hoje!”, exige ele num tom de voz altivo. “Mas eu hoje não posso.”, respondo eu. Só que nenhum argumento que se possa arranjar interessa ao Demónio, que rapidamente me arrasta para o Inferno e me obriga a ver labaredas imaginárias e sangue fictício a escorrer das bermas de túmulos holográficos . “Ele deve mesmo amar-me”, penso eu enquanto me deixo perder na presença deste Demónio só meu. Tanto tenta que eu o tema, mas cora quando eu o toco. Ah, Demónios, no fundo, vocês são apenas uns verdadeiros incompreendidos, à espera que uma porta se abra e vos deixe entrar no nosso mundo.

Pequeno post, sobre um pensamento maluco, acompanhado pela bela arte de João Ruas (Catch)

(Texto por: Snow White)

Intergalactic rebels


Estou sóbria e depois digo e escrevo que existo numa realidade diferente.



I'm sober, looking at an imaginary screen built in my head, and then I start writing about my existence in this different reality. Here you can reach and touch your imaginary creations, fall in love with them and never have your heart broken, but you can break their hearts. Your creations are built with a replica of a human heart and they can feel, but after a while they are discarded. Every time you create a new one, a funnier, sexier and much more interesting being, the old one is thrown into the trash. It's the normal cycle of things. Repeated over and over again. But then your creation, the one in the trash can, starts to cry and gets picked up by a poor girl that is hungry for affection. The poor girl and the discarded creation start living together on the streets, shielding each other from the harm of this different reality, and every time He, the creation, says "I love you", the heart of the poor girl is filled with joy. Every day they sleep together in a tight hug and look up at the grey sky. And then, while counting the spaceships that they watch passing by, She starts saying "I love you too" to the discarded creation and begins to let him play with her short hair.

I gaze at them sleeping together every time I leave this house built in my mind. It is not a house made of bricks. And sometimes the discarded creation gazes back at me. Then I keep walking, and I don't look back again.

Time passes fast in here. The girl turns into a woman and her hair is now long. The discarded creation stays the same and follows his savior anywhere she wants to go. Plans of running away from this different reality are filling her mind. He keeps following her. She decides to steal one of those spaceships that now fill the grey sky, and he still decides to follow her. Then, at last, in aforeseeable way, they cross paths with me once again, and with a made up gun, that can't harm me, the woman threatens me.

I give them my spaceship for them to become runaways, but the discarded creation stays still now. He does not move an inch away from the place he's standing. His gaze was locked on mine. The woman screams for him to follow her. She screams louder and louder and she starts crying while screaming his name.

"Go, she gave you a name." - I say, to my once, discarded creation. And he turns his back on me, while entering my spaceship with the woman that took care of him all of her life.
But the thing is, while you fly my pretty spacecraft, and wave around the gun made in this reality of mine, you take my creation with a heart programmed to love me forever, yet, there you go now, thinking that you both fit the profile of some kind of Intergalactic rebels.


Story written by: Snow White

(Image, once more, by James Jean)
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